Quando me calo.
Espreito-te devagarinho no quarto. Tardo em adormecer. Abro a porta devagar e pé ante pé, caminho até sentir o teu respirar pesado pela profundidade do teu dormir.
Não adormeço sem te olhar. Não sossego sem afagar o teu cabelo.
Apesar do calor, tapo-te com um lençol, como se te protegesse de alguma coisa enquanto estás só naquele que é, enquanto cá pernoitas, o teu quarto.
Cresces todos os dias. Enorme. “Gigante” como tu dizes.
Quando te observo a dormir, vejo a tua bochecha a ficar mais esguia, com a dentição definitiva a aparecer da tua boca aberta.
Sorrio.
Cai-me uma lágrima.
Apetece-me abraçar-te e espremer-te contra mim enquanto retenho a respiração.
Como se o teu abraço me desse o meu último suspiro.
Seria assim que queria que fosse. No teu abraço.
Saudades do abraço. De um abraço.
Depois de te beijar a face, tu levantas a mão e dormindo, fazes-me uma festa. Recordo-me de como todas as noites, bebias o biberão com celerac sem despertares. Truques para me (nos) dares algum descanso durante a noite.
Fecho a porta do quarto com a sensação de que só depois daquele ritual ficas em segurança.
O meu instinto protector desperto.
Durmo sem tranquilidade. Sem conseguir de facto, dormir. Um sono acordado. Atento. Vigilante. Por vezes consigo ouvir-te a respirar no outro lado da casa.
Deito-me de costas e com um braço debaixo da cabeça, olho o tecto do apartamento como se tivesse estrelas.
As do meu alentejo. Grandes, luminosas e atentas a ti. Dirigidas a ti. Olhando para ti.
Fecho os olhos…até ouvir o teu caminhar descalço a sair do quarto. Acompanhada pela manhã, vens em direcção a mim, entregar-me o abraço e o beijo que me mantém aqui.
Sem cobrares, sem pedires, sem interesse, sem proveito, sem nada, … com tudo.
Levanto-me e faço-te o pequeno-almoço, enquanto acordas junto dos teus desenhos animados preferidos.
Lembro-te que tens que comer tudo. O dia é grande e belo, atento e esperando a tua energia irrepreensível e inesgotável.
Surgem as minhas primeiras ordens.
Do pai, quando te mando lavar os dentes.
Do amigo quando te abraço recompensando-te por te teres vestido e lavado sem te mandar.
Do teu mestre quando te respondo às questões pertinentes e filosóficas da manhã.
Do teu educador quando te peço para me ajudares com a mochila e com os sacos.
Do teu tudo o que precisares que seja.
No automóvel vamos brincando e falando como se fosse (e é) mais uma despedida, mais um até logo, mais um até ao próximo fim de semana, mais um “ não estou contigo mas estás no meu coração… e não te esqueças… liga-me todos os dias…”.
Esquecer... Como se pudesse ou quisesse.
A viagem para a escola, faz-se sempre com uma mão dada a ti.
Fazemo-lo sempre que andamos de carro. Atrás na tua cadeira, impões-te a ti própria algum desconforto para me dares a mão, enquanto conduzo. A busca da minha mão, é mais um gesto teu que me dá alento, durante a (mais uma) separação.
Chegamos à escola e entrego-te aos educadores. A minha protecção acaba e volta a agonia.
Deixo-te com a professora e volto a baixar a cabeça. Volta o silêncio. Voltam as cobranças. Os deveres. As tarefas. Os compromissos. O peso nos ombros. A solidão. O silêncio. O silencio. O silencio…
A tua imagem aparece e mantém-me neste curso. Preso nesta vida a ti. Por ti.
Cá onde sei, que dentro de uns dias, vou novamente ser abraçado, amado por ti.
Todos os dias vou falar contigo.
Vou ouvir-te dizer que me adoras e que sou o melhor pai do mundo.
Com o regresso a casa já sem sol, entro e vejo os rastos da tua presença...
Falo contigo e penso que dormes no quarto.
… porque à noite… quando adormeço… oiço os teus gritos de alegria na praia, ou no parque, ou os teus comentários no cinema, ou os sorrisos marotos, ou gozões…
… Agora… parece que te consigo ouvir a respirar no outro lado da casa
Mas não estás.
Hoje não te vejo adormecer.
21 de julho de 2009
Provavelmente zudan à(s) 7/21/2009 03:26:00 a.m. 1 comentários
Etiquetas: Me
20 de julho de 2009

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
Provavelmente zudan à(s) 7/20/2009 08:14:00 a.m. 0 comentários
Provavelmente zudan à(s) 7/20/2009 06:05:00 a.m. 0 comentários
Provavelmente zudan à(s) 7/20/2009 04:40:00 a.m. 0 comentários
19 de julho de 2009
13 de julho de 2009
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, meu pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que me cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira,
in 'Mãe Pobre'
Provavelmente zudan à(s) 7/13/2009 12:11:00 a.m. 0 comentários
12 de julho de 2009
Livro de Horas
Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
Miguel Torga
Provavelmente zudan à(s) 7/12/2009 01:31:00 a.m. 0 comentários
Etiquetas: Poemas
11 de julho de 2009
Provavelmente zudan à(s) 7/11/2009 01:58:00 a.m. 0 comentários
Etiquetas: modern life
10 de julho de 2009

Alguém fez mais um aniversário.
Eu fechado no meu apartamento. Em reclusão.
Ele, o aniversariante, estava lá fora.
Ao calor e à chuva que não caía.
...
Ele nunca gostou de festas nestas alturas.
A timidez tomada na exposição de outrora e as brechas da vida, curtiram um Homem,
calado, reservado, introspectivo e nestas datas, profundamente infeliz.
Sei que tenta festejar o aniversário, mas nem se lembrou que era a sua data.
Passou o dia à espera. De nada. De tudo.
Da gota de chuva que pudesse molhar-lhe a alma.
...
Cá dentro, o telefone tocou inúmeras vezes. Vozes de carinho e de respeito pelo aniversariante que estava no lado de fora.
Atendi por ele. Respondi que não se encontrava o homem da festa.
Aqui apenas estava eu. Fechado. recolhido por estas paredes já sem cheiro.
Se fosse eu a fazer anos –pensei- teria adorado as inúmeras chamadas telefónicas e mensagens...
Sinal de qualquer coisa... Vi que muita gente gostava dele. (Não de mim...)
Desassossegavam-se com a ausência do Homem do aniversário. (Não comigo...)
Afinal, ele, lá fora à espera da chuva neste dia de calor, não sabia que fazia anos...
Incólume ali estava, olhando para o céu.
Abstraído. Como se o sonho lhe caísse nos braços a qualquer momento.
Eu aqui, isolado entre quatro paredes... apenas sei que vou ficar mais dias, aqui, fechado...
Queria fazer anos hoje...
Queria muito trazer o aniversariante para dentro deste apartamento... vazio.
Juntos beberíamos um copo.
Brindávamos a todos os aniversários do mundo.
Mas ele não quis entrar. Acho que não sabe que faz anos...
Pode ser que no Natal já venha cá para dentro... – Entretanto... vou continuar a olhar para ele da minha janela.
Só a olhar para ele...
Um dia virá para dentro... ou sairei eu para o pé dele.
Provavelmente zudan à(s) 7/10/2009 10:10:00 p.m. 0 comentários
Etiquetas: Me
3 de julho de 2009
29 de junho de 2009
17 de junho de 2009
16 de junho de 2009
A morte nunca me assustou.
Talvez por a vida ser isso mesmo. Vida e morte.
Falo apenas da minha... sobre a dos outros...
... Um dia vou saber viver com isso.
Um dia vou saber gerir a tristeza e a alegria.
Saber quando sorrir e quando chorar nos momentos exactos.
Saber fazer tudo como esperam...
...
Faleceu mais um dos meus “velhos”.
Desapareceu mais um bocado da infância que me talhou.
Mais um momento de pesar, mas sobretudo para pensar...
O Manel faleceu sem ver o mar.
É verdade Manel. Nunca viste o mar.
Conhecias aquele teu largo e a ribeira como ninguém...
Milhares de vezes ali viste o por do sol, depois de dares de comer ao gado.
Sabias de cor o percurso que um dia fiz para te ir comprar “provisórios”
enquanto cosias as botas que calçavam meia vila.
também me fizeste umas.
Com cardas e protectores, para fazer barulho e deslizar no átrio da igreja riscando o chão encerado.
Fazia-me feliz...
...
- Não viste nada. - diziam as carpideiras.
Não é verdade Manel.
Apenas nunca viste o mar. É a única coisa que me arrependo por ti.
Sei que em vida, nunca entraste em cemitérios...
...eu entrei duas ou três vezes... sempre fugi de funerais... para dor de muita gente...
Não sei lidar com a morte. Não sei fazer lutos.
Um dia vou saber...
Vou saber...
Ontem soube descer-te à terra.
Segurei nas cordas com os outros homens e com os braços a tremer..
Enquanto segurava as cordas... molhei-te o caixão...
Com sal...
com um bocadinho de mar Manel...
Provavelmente zudan à(s) 6/16/2009 11:59:00 p.m. 0 comentários
25 de maio de 2009
A sociedade portuguesa no seu melhor...
Provavelmente zudan à(s) 5/25/2009 01:37:00 a.m. 0 comentários
15 de maio de 2009
As coisas que tão facilmente esquecemos...
As coisas que tão facilmente nos recordamos.
Hoje vou dar um beijo aos meus pais.
Só hoje.
Amanhã já me esqueci outra vez...
...eles não me esquecem.
Como eu não te esqueço...
por um segundo...
Coquita do pai.
Provavelmente zudan à(s) 5/15/2009 02:50:00 p.m. 0 comentários
3 de maio de 2009
2 de maio de 2009
Another night...
White.
Dark.
Night.
...Nothing.
No hope.
...
Lost everything…
Lost my faith…
Lost me.
Provavelmente zudan à(s) 5/02/2009 07:38:00 a.m. 0 comentários
1 de maio de 2009
Honour.
Respect.
Courage.
Freedom.
Truth.
Justice.
Just to have anything to die for.
And no.
Faith and Love don´t exist on my list...
anymore.
Provavelmente zudan à(s) 5/01/2009 04:06:00 a.m. 0 comentários
30 de abril de 2009
Little voices...
Aguenta...
Afinal é para sofrer que foste feito.
Para andar de cabeça perdida
a pensar no que (ainda) poderias fazer.
No que poderias ter feito.
No que erraste.
Nada existe para além da razão.
Nem a fé.
Nem o coração.
Não chegas,
É para sofrer que foste feito.
...
e essa é a tua missão.
Provavelmente zudan à(s) 4/30/2009 05:31:00 a.m. 0 comentários
25 de abril de 2009
1 de abril de 2009
Provavelmente zudan à(s) 4/01/2009 03:47:00 p.m. 0 comentários
3 de março de 2009
13 de fevereiro de 2009
11 de fevereiro de 2009
7 de fevereiro de 2009
Soundgarden - Mailman... para estes dias...
Provavelmente zudan à(s) 2/07/2009 11:28:00 p.m. 0 comentários
20 de janeiro de 2009
Vou acrescentar um novo nome ao novo "dono" do mundo:
Barack "HOPE" Obama
One sunny day in January, 2009 an old man approached the White House from Across Pennsylvania Avenue, where he'd been sitting on a park bench He spoke to the U.S. Marine standing guard and said, "I would like to go in and meet with President Bush."
The Marine looked at the man and said, "Sir, Mr. Bush is no longer president and no longer resides here."
The old man said, "Okay", and walked away.
The following day, the same man approached the White House and said to the same Marine, "I would like to go in and meet with President Bush."
The Marine again told the man, "Sir, as I said yesterday, Mr. Bush is no longer president and no longer resides here."
The man thanked him and, again, just walked away.
The third day, the same man approached the White House and spoke to the very same U.S. Marine, saying "I would like to go in and meet with President Bush."
The Marine, understandably agitated at this point, looked at the man and said, "Sir, this is the third day in a row you have been here asking to speak to Mr. Bush. I've told you already that Mr. Bush is no longer the president and no longer resides here. Don't you understand?"
The old man looked at the Marine and said, "Oh, I understand. I just love hearing it."
The Marine snapped to attention, saluted, and said, "See you tomorrow, Sir"
Provavelmente zudan à(s) 1/20/2009 09:23:00 a.m. 0 comentários







