25 de março de 2005

“Continuou a escrever porque era a única coisa que se sentia capaz de fazer. Os romances policiais pareceram-lhe uma solução razoável. Não lhe dava muito trabalho inventar as intricadas histórias que aquele género requeria...”

“Trilogia de Nova Iorque”
Paul Auster

Para quando não há vento...

“ Tens aquele ar inatingível, assim como se nunca ninguém te conseguisse conhecer... e depois atrais as pessoas quase até ao sufoco. Tens uma energia qualquer que lidera as pessoas e as envolve, como se tivesses que as proteger de algo... como é que consegues viver com isso?”

... se existem coisas na vida que eu gosto, é de beber uma cerveja acompanhado de dois ou três amigos.
Aquelas tertúlias que disparam num sentido quase para além da matéria. Quando o “in vino veritas” começa a fazer parte integrante e propulsor da cavaqueira.

Obtive autorização dos intervenientes para divulgar a parte acima descrita.
Achei-a uma frase “profunda” e já habitué noutras conversas.
Consegues viver com isso?

23 de março de 2005

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...


Álvaro de Campos/Pessoa - Adiamento

21 de março de 2005

Parecia um mau augúrio o post anterior.
Mais dois Agentes da autoridade caídos em combate.

...

Mais dor. Mais insegurança. Mais promessas. Mais mentiras.

...

Começa hoje a primavera...

19 de março de 2005

Ganhei uma camisola nova.
Uma t-shirt branca com as mãos dela impressas.
Em alto relevo, às cores.
Reconheceria aquelas mãos em qualquer parte do mundo.
Em qualquer camisola... com chocolate, lama ou até comida.
- Pai...e viste, e viste o papel igual.
- Sim Filha... também tem as tuas mãozinhas...

DIA DO PAI.

14 de março de 2005

Três pessoas, entre as quais um juiz, foram hoje mortas a tiro e uma quarta ficou ferida, num tiroteio no interior de um tribunal, noticiaram os «media». A polícia só confirmou, até ao momento, a morte do juiz. ...
Um homem armado abriu hoje fogo num hotel da localidade de ... , durante um serviço religioso, matando quatro pessoas, ferindo oito e suicidando-se em seguida, anunciou a polícia local. O homem, cuja identidade não foi revelada...
Um homem de 60 anos foi hoje morto a golpes de machado e quase decapitado, numa rua de ..., em pleno dia, por um desconhecido, noticiou a agência noticiosa...
Um médico foi esta segunda-feira atingido a tiro no Tribunal de P... por um homem que o responsabiliza pela morte da mulher em 2002 ...

...

Portugal; um país à beira mar plantado onde (também) em matéria de segurança, anda sempre atrás dos outros países... os ditos civilizados.
Quando nesses "outros", se implementavam medidas democratas e mais livres, nós apertámos o cerco.
Neste momento, devido à conjuntura actual, nos ditos Grandes aperta-se a corda.
Nós alargamos.

...

Nas frases acima... conseguem ver a diferença?

10 de março de 2005

Cheguei e vi.

Já temos governo e os que ainda são governo continuam a governar-se e aos seus amigos.
Os da direita que viraram à esquerda despacharam os da extrema esquerda que viraram à direita e que se dizem de centro direita.
Oito de lá e oito que não.
Alguns Doutores e outros só, Senhores.
Os da justiça foram para a administração interna e os da administração interna para a justiça.
Os que ainda estão continuam a fingir que não e a despachar para os que querem que venham.
Alguns repetentes e outros tantos novinhos.
Uns são “istas” e os outros ou são “ões” ou nem por isso.
Duas são elas e os outros são eles.
Os que perderam não assumem para o que correram e os que ganharam já dizem que não é bem assim o que diziam.
Os que antes falavam que sim agora dizem que não.
O futebol e as novelas importam e a universidade (leia-se canal televisivo) do crime e do lucro complacente continua no ar e a ensinar, qual canal de sexo manifesto.
No Iraque é como os outros querem, a Líbia diz que talvez não... o Irão diz que nim.
O papa está doente e a terra sem água.
Um retrato com um fundador ...
Uma televisão para tudo e jornais cheios de nada
...

Tudo na mesma...

7 de março de 2005

Ausência.

Consegui encontrar um sítio no globo sem computadores.
Com todos os seus benefícios e contrariedades.
Desculpem os leitores e ... os outros.

Estou de regresso.

17 de fevereiro de 2005

A utilização de valores intocáveis da civilização em prol da promoção pessoal pública em tempo de eleições.

Ou

Como utilizar a desgraça dos outros para uma campanha suja e cobarde.

Ou ainda

E se tivessem vergonha na cara e respeitassem as famílias enlutadas?

-Silêncio-

Acordei deveriam ser quase sete horas da manhã.
O despertador, amigo e fiel, pulsava um som fino e estridente a pedir para levar a já rotineira palmada matinal.
Por estar desperto, alterei o sinal incomodativo para um não menos azucrinante noticiário das sete.
“Agente da PSP morto a tiro na cova da moura” – Informava a familiar voz feminina.

-Silêncio-

Fui almoçar.
Na televisão os partidos politicos debatem-se para gritar mais alto que a Polícia tem falta de meios.... ?!?!

-Silêncio-

Após a morte da irmã Lúcia.
A Igreja aceita o facto, como uma transição e com naturalidade.
O Povo, embora transtornado, também.

-Silêncio-

Os candidatos ao governo cancelam a campanha eleitoral e as suas declarações declamam cinismo e uma falta de bom senso quase roçando o gozo...

-Mudez-

É o vale tudo senhores ouvintes.
Um bom dia para vocês.

16 de fevereiro de 2005

Aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhh...
Olá, bom dia.

Estou numa de Ron Carter e de Jim Hall.
...
Ai a minha pressão arterial... preciso de férias...

15 de fevereiro de 2005

Dias de Livros e Discos...

"Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte... "

Carlos Ruiz Zafón in A Sombra do Vento

Maximilian Hecker

O som desprovido de interesse comercial.
As palavras quase sem variação, mas dotadas de uma sensibilidade extrema.
A mensagem... essa deixo ao critério de quem ouvir.

E da circunstância em que se ouve...

14 de fevereiro de 2005

Hoje é dia dos namorados.
Dia de S. Valentim.


Ganda maluco...


...foste enganado Valentim.

***

Mais um post patrocinado por:

Zara, Swatch, Levis, Lacoste, Gant, QuebraMar, etc. e tal...

E o dia do Pai está mesmo aí à porta...

12 de fevereiro de 2005

Hoje o Jazz ficou de lado.
Oiço Jorge Palma...

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar...

Portugal, Portugal - Jorge Palma
...
No dia 20, convém dizer qualquer coisa... com uma cruz de preferência.
Ou com um bilhete de avião para a ilha da Páscoa.
Sempre há umas coisas em pedra para o pessoal desabafar...
...
Ou então...façam como eu. Vou de férias um dia depois.
É só vantagens.
1º Esqueço-me que houve eleições.
2º Esqueço-me que tive que votar, apenas por respeito à Liberdade.
3º Regresso duas semanas após, e como está tudo na mesma, não vou perder muito tempo a pensar nos milhões de euros que o país gastou... a não fazer nada.
4º Vou continuar.

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar...

A gente vai continuar - Jorge Palma

1 de fevereiro de 2005

A Teoria do Caos versão Dieta Mediterrânica


Deixemo-nos de parvidades.
Somos um povo de brandos costumes e hábitos por vezes demasiado brandos e costumeiros.
Mesmo na luz de quem está habituado a recuperar das cinzas, evidenciamo-nos na moderna Europa como um povo amante do sol e do bom garfo.
Confusão meus amigos. Confusão.
...
A teoria do caos versão dieta mediterrânica, baseia-se fortemente no falar de tudo e dos mais completos e complexos assuntos,... à mesa do restaurante ou da taberna da esquina.
Depois de dois ou três copos de vinho, um "portuga" que se preze, ganha batalhas, enfrenta demónios, destroça civilizações, expõe vidas e vivências e derrota políticos, com a facilidade com que come um pastel de bacalhau.
É lindo ouvir uma conversa de café ou de restaurante.
...
No café, começam a concentrar-se logo após a chegada do azul alaranjado declarando o fim de tarde.
Entre tremoços amargos e rissóis com três dias, mergulhados em sete ou oito cervejas, mexem-se em matérias tão dispersas quanto as distintas e extintas Alexandrias.
Caem estados e nações no meio daquelas conversas aturdidas e sinceras.
No restaurante...
Outro meio. Outro método.
Do inicio engomado e tímido aos comentários debochados sobre as pernas da empregada, é um ou dois litros de uma qualquer reserva alentejana.
Sim, porque um bom praguejador tem necessariamente que beber vinho de reserva.
E assim se movimentam, naquelas teorias construídas durante a última estada na privada do escritório.
Enraivecidos com a facilidade com que não se faz nada de construtivo... apenas se passa o tempo...
...
Teoria do Caos.
O tempo passa. E depois?
...
Mesmo que ainda se saiba o que andamos para aqui a fazer...
E acreditando no efeito borboleta da coisa...
...
Acho que a única consequência...
são os pastéis terem quatro dias ou aquele vinho reserva aumentar de preço.

27 de janeiro de 2005

Cruzamentos.
Passamos pela rua e normalmente acreditamos que vemos o que nos rodeia.
Observamos.
Cruzamo-nos com faces e andares sabidos.
Cumprimentamos.
Quando é apenas uma cara familiar, esperamos desesperando para ver a reacção da outra pessoa.
Quando não há reciprocidade, desalentamos ou sentimo-nos ofendidos.
...
Cruzar o olhar com um desconhecido tem por vezes efeitos inexplicáveis.
O estômago embrulha-se como se as entranhas ganhassem vida própria.
O pensamento desvia-se sempre nessa direcção e a essência descobre-se...
Decidimos recordar que afinal somos feitos de uma matéria única, que gosta, pensa, odeia, sente e ama... que afinal, vive.
...
Podemo-nos até preocupar com os olhos com que nos cruzámos naquele dia... mas assim e desprovido de qualquer interesse, o pensamento, inocente e atraiçoado, pode voltar a engolir as vísceras...
...
Descobre-se um afastamento involuntário.
Vomita-se um comentário desafogado, explora-se a violência mas... no nosso íntimo...
não gostamos de ver sofrer.
A dor choca-nos e derrota os laivos de alegria, retira-nos a sobriedade de pensar.
Por vezes sobrepõe-se ao carpe diem que nos leva a atravessar uma manhã após a outra... mostrando o nosso sorriso parcimonioso.
Afoga-nos o pensamento e a necessidade de não querer ver sofrer...
O choque de um olhar, híbrido na capa de uma revista... na televisão ou no jornal...
...
Uma criança que não sabemos o nome e que descansa no colo do seu pai, sem vida.
...
Derrota-nos e esclarece-nos.
Mostra-nos o mundo... esquece-nos no meio das futilidades da vivência urbana.
Esclarece-nos o que os cruzamentos são.

24 de janeiro de 2005

O circo da campanha voltou...
Ah e coiso e tal e o camandro...
Ah e já dizia o picanço...
E o outro é que fez... mas assim é que é....
...
Facto.
O PIB deste quintal tem vindo a cair desde 1973.
...
Facto.
O investimento privado está a fugir para outro lado.
...
Facto.
A população activa está a diminuir.
...
Facto.
O orçamento está sobrecarregado e recorre-se a receitas extraordinárias, para (tentar) equilibrá-lo.
...
Facto.
Quem paga impostos é quem não tem contabilista.
...
Facto.
A qualidade dos políticos caiu a pique nos últimos vinte anos.
...
Facto.
Para alguns a frase “espírito de missão”, é sinónimo de "enriquecer antes dos quarenta".
...
Facto.
Pela primeira vez, acho que coiso e tal e o camandro, e vou para a abstenção porque até me dizem que sim senhor, e coiso.

Merecem.
A democracia não, mas coiso e pronto.


Sr. Político:
Se teve algum tempo, no meio das suas dissertações altamente elucidativas, ( sobre a sua incapacidade para tirar o País de onde se encontra) para consultar um local na net, que até... pronto... sim senhor, tem até ao dia 19 para me convencer.
Caso contrário... prontos.

18 de janeiro de 2005

Burocrata
do Fr. bureaucrate
s. 2 gén.,
funcionário público, em especial o funcionário do Estado que segue impreterivelmente os formalismos de secretaria;
o que faz parte da burocracia.

Funcional
do Lat. functione, função
adj. 2 gén.,
relativo a uma função ou um conjunto de funções (de um organismo, de um maquinismo, de uma instituição, etc.);
prático;
que se usa facilmente;
cómodo;
pronto para entrar em funcionamento;

Eficiente
do Lat. efficiente
adj. 2 gén.,
eficaz;
agente de acção;
que produz realmente um efeito;

Incompatível
do Lat. *incompatibile
adj. 2 gén.,
que não é compatível;
que se não pode harmonizar ou acumular;
inconciliável.


Está nos livros porra.

10 de janeiro de 2005

Engraçado.
Pensei que um dia mudaria o mundo... sonharia a meu belo prazer com as desgraças resolvidas e revolvidas nos espíritos menos imponentes.
A frase “ não deixes que ninguém venha a ti sem sair melhor e mais feliz” foi a minha contenda.
Naquele mundo de super heróis e pensamentos corajosos, gania-se pela raiva provocada pela injustiça.
Naquele mundo não se estava sentado, embrenhado entre o choro e o desespero de quem precisava... de ajuda.
Naquela guerra, ficaria desperto, empregaria termos de alegria ao invés da angústia que me atormenta... e o nada não seria a palavra dos pesadelos.
O nada pertenceria à terra dos sonhos... tal qual como aquele homem cantava naquela telefonia, afogado numa garrafa de qualquer coisa.
Engraçado.
Esperei, que um dia fosse mais um... da parte apta e que movimenta a roda. Que tentasse transmitir algo e... que não fosse apenas... mais um....
Sonhava em ser o contentamento daquelas gargalhadas inconsoláveis... e que elas não bradassem ao seu dono... pois de tamanha inocência, sabia que era apenas... assim.
Era como cuspir as palavras para uma folha.
Necessitam de ser expelidas. A caneta dá-lhes forma e a folha entranha-as... bem ou mal. São assim. Puras. Cuspidas.
Naquele campo de esperança, apenas se queria crescer. Desejava-se a altura e a vontade. Jurava-se a sangue que não desencardia. Sangue com cor de terra e cheiro de sal.
Engraçado.
Como o presente gritou pelo passado do sonho, e aquele argumento de um qualquer filme de segunda categoria, me desloca de novo para a idade onde pensei que mudaria o mundo... e sonharia a meu belo prazer.
Aquele pequeno vilão das nêsperas, sonhava um amanhã para outros tantos pequenos vilões... de nêsperas.
A meninice nunca tocariam na marginalidade.
Nenhum ficava para trás. Nenhum era apanhado sozinho.
...
- Fujam malta, vêm aí o homem...- gritava o vigia do alto da parede esfolada e esbatida pelo sol.
De dedos lívidos e joelhos rasgados do cal das paredes, esgatinhavam os muros, e corriam com um sorriso nos lábios e as camisolas mascaradas de sacos... cheias de nêsperas.
Era o gozo da apanha. De contenda em contenda iam-se despindo as árvores nespereiras do "velho da casa";
O gozo da corrida à frente de alguém que até sorria com os cachos de putos pendurados nas àrvores...
Acho que chegamos a ser observados do interior daquela oitava quadrícula de vidro partida... sei que ele esteve lá.
Mas nunca lhe cheguei a saber o nome.
Mas que eram boas, ... as nêsperas, lá isso eram.
...
Engraçado.
Hoje, apenas conto os capítulos, sem saber quando o epílogo virá.
E espero que a história se imobilize. Mal extinta. Mal contada. Antes que a raiva me esventre e a solidão me acompanhe.
Sou o bafejar de um episódio que ainda não sei porque não acabou... daquele livro desorganizado e por escrever.
...
Os vilões de nêsperas, esses...
Engraçado.
... ainda estão à espera para crescer.

8 de janeiro de 2005

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo) e
cloreto de sódio.

António Gedeão

2 de janeiro de 2005

Começou.

Como em todos os preâmbulos, a esperança e os sonhos estão em estado puro.
O leitor, no caso de um livro, ainda devora as palavras esperando o assombro e o superior.
Não sei se será desculpa ou uma forma de nos convencermos que devemos tentar outra vez... e mais outra... e mais outra.... ou apenas uma conformação de que somos feitos daquela matéria inesgotável, que até renasce das cinzas com a facilidade da fénix.
...
A capacidade de reconstrução está embutida na nossa matéria.
...
Mais um início.
Contra todas as adversidades.
Que a fé seja o guia do nosso batel.
Mais do que um bom ano, uns excelentes 365 dias.

30 de dezembro de 2004

Verifico a sensibilidade de tudo o que se passa em nosso redor.
...
Troquei o olhar com um blog que visito habitualmente e disso se fala.
Mas quedei-me na mais absurda confirmação da pequenez humana
...
Não serve de desculpa, é a primeira mensagem de correio electrónico corrente que transcrevo na totalidade para o adversidades... e não me choca. A condição humana, repito, ruiu.

“Na SIC Notícias deu uma reportagem onde entrevistaram portugueses que partiram depois da tragédia para a Tailândia, mantendo as férias marcadas como antes de tudo acontecer. D... F... respondeu que já tinha as férias marcadas, que não tinha ficado nada preocupada com o que tinha acontecido, porque os pais, que lá estavam, tinham enviado uma msg a dizer que tinha havido "uns tsunamis e umas coisas", mas estavam bem.
Quando a jornalista lhe pergunta se estava triste com toda a situação D... F... respondeu "sim, claro, agora já não vou ter todas as condições de férias que iria ter se por acaso não tivesse acontecido nada disto, por outro lado, estou contente, porque vejo as coisas mais ao natural, como elas são."


Ruiu.
E não se sente?

Feliz Ano Novo amigos. Feliz Ano Novo.

Cântico Negro

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,Tendes jardins, tendes canteiros,Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Maria dos Reis Pereira (José Régio)


27 de dezembro de 2004

Kamala, Patong, Karon, Nui, Kata, Kata Noi.

Ao primeiro olhar, parecem nomes tirados de uma qualquer banda desenhada japonesa, tipo hentai, onde os super heróis tem faces parecidas com a Heidi e demoram uma eternidade a efectuar um gesto aparentemente simples.
Não são.
São o nome de algumas das incontáveis praias da outrora paradisíaca e desnoitada Ilha de Phuket situada na Amazing Thailand.
Banhada pelo mar de Andaman e de costas para o golfo da Tailândia, esta ilha saltou para a ribalta, zangada com Banguecoque e fazendo de encruzilhada para as culturas dominantes e colonizadoras, Portugal incluído.
Escrevo sobre Phuket, como poderia escrever sobre qualquer outra ilha ou país desta região do globo, e até porque Phuket não tem nada que ver com a ilha do Farol ou de Tavira, e ainda não escrevi sobre estas.
Não é um paraíso tipo
Phuket está para as Ko Phi-Phi, sobejamente divulgadas e inflacionadas com o filme “A Praia” de Danny Boyle, como Quarteira para as Berlengas. Nada a ver.
Mas hoje escrevo de Phuket.
A Ko Phuket, onde se vendem massagens e fruta fresca em troca de alguns bath, e onde o dia nasce às catorze horas, fruto daquela noite rocambolesca maquiada com alguns traços de surrealismo.
...
Hoje vi uma paragem.
O posto de Polícia na praia de Patong a ser engolido por um prédio de água.
Incontrolável, desmesurado e arrasador.
Recordo-me de estar meio sentado, meio de cócoras, num lancil de cimento perto daquele posto de polícia. De observar um rapaz imberbe, aparentando cerca de quinze anos, barba asiática dispersa, alardeando um revólver cromado chegado a uma farda não menos espampanante... e de passar por mim uma onda.
Uma onda... não de água, mas de uma qualquer mistura de pânico e compreensão.
Parei neste passeio, de cócoras, e pensei durante breves instantes na nossa incapacidade alienígena, tipo, sintoma “Expresso da meia noite” versão Kafka.
Era da viagem.
Tinha vindo de Kuala Lumpur de autocarro. Desnoitado, tive a certeza que era da viagem.
...
Na incapacidade. Aquelas ruas por onde passei, incapacitadas.
Canais de uma torrente de lama e sangue, onde antes o cheiro a esgoto e a protector solar, juntamente com os brados dos vendedores de relógios contrafeitos, serviam de chamariz para um viajante... incapaz.
Corpos estendidos nas praias, não de imensas almas ébrias mas de corpos de desprovidos de vida.
Chocou-me mais Phuket, que tudo o resto que contornou o maremoto na Ásia. Confesso.
...
A ver se será um acordar do Irão.
Alguém parece estar a chamar a atenção da humanidade para qualquer coisa...`
Humanidade incapaz...

26 de dezembro de 2004

Muammar Kadhafi afirmou que a entrada da Turquia na União Europeia é o cavalo de tróia do mundo islâmico e dos seus extremistas...

Não se deveria ter mais atenção a estas afirmações, principalmente quando provindas de um homem cujo cognome é “O Terrorista” ?

Ai adverCidades adverCidades...

“Os blogues portugueses foram a mais importante alteração positiva do sistema comucacional nacional.
Têm, todos sabemos, coisas péssimas: leviandade, cobardia anónima, agressividade balofa, arrogância moral, manipulação, militantismo sectário.
Não são miasmas que vêm da nossa atmosfera pequena e asfixiante, cheia de ressentimentos e escassez de bens e lugares para a blogosfera.
Mas, da blogosfera, para fora, saiu qualidade, debate, controvérsia, imaginação e notícias.” Pacheco Pereira in Revista Sábado nº34

25 de dezembro de 2004

Estará na moda dizer que não se gosta do Natal?
Que já não é como era dantes?
...

24 de dezembro de 2004

Um Feliz e Santo Natal para os confidentes do AdverCidades.

21 de dezembro de 2004

Queria tanto falar a ninguém e que esse alguém me compreendesse.
...
O meu ponto de equilíbrio está prestes a ruir.
Todos o temos. Apenas varia a fonte de energia.
A matriz para que possamos ser nós.
Plenos de todas as capacidades. Na família, no trabalho, nos grupos que frequentamos.
...
É como na guerra.
Quando falha tudo o resto, consequência da perda da instabilidade.
Surge o confronto.
...
É como na guerra eterna.
Quando falas e ninguém te entende, por problemas de código ou de canal, ou até pelo facto do receptor não estar com interesse na transmissão.
Surge o desgosto.

O desequilíbrio brota quando acrescentado ao desinteresse se junta a alteração na comunicação original... e as fontes esgotam.